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Programas, projetos e iniciativas para formação de professores

A cartografia como instrumentalização do discurso

Rene Antonio Novaes Junior

O trabalho buscou apresentar a cartografia aos alunos do Ensino Básico, mais especificamente, aos que se encontram no Ensino Fundamental II, não apenas como uma técnica de representação do território, mas, também, como uma linguagem para subsidiar um discurso junto ao poder público local. O conceito de cartografia tradicional, seguindo conteúdo programático proposto pela Secretaria Estadual de Educação, foi desenvolvido em seguida, o conceito de cartografia social e digital foi trabalhado com os alunos.

Conforme Ascerald (2008) a cartografia social contribui para a construção e reconstrução de territórios, por cidadãos comuns, conhecedores do ambiente em que vivem, sugerindo soluções para o enfrentamento dos problemas, e ou situações que os afetem no cotidiano. O processo de elaboração de mapas torna-se, assim, um exercício de cidadania. Através da prática do mapeamento participativo, os grupos de alunos participantes do projeto, que incluíam quatro escolas públicas estaduais, localizadas no município de São José dos Campos - SP, receberam em papel, a impressão de uma imagem de satélite, de alta resolução, contendo o limite espacial de atuação das respectivas escolas. O traçado dos limites foi efetuado com o auxílio dos coordenadores pedagógico das escolas participantes.

O objetivo desta etapa do projeto, realizada exclusivamente pelos alunos, em sala de aula e em campo, foi instigá-los à uma leitura do território, assim como identificar os equipamentos públicos existentes em seu interior. Os grupos tiveram que identificá-los na imagem de satélite recebida, e descrever a localização espacial e estado de conservação dos equipamentos. A segunda etapa foi a realização de um city tour pela área urbana do município, cuja intenção foi proporcionar aos alunos uma leitura de outros territórios, com seus diferentes equipamentos. Esta etapa contou com a presença de dois guias turísticos narrando a formação do macroterritório, proporcionando aos alunos ampliarem seu conceito de equipamentos públicos. Na terceira etapa, os grupos se reuniram com o intuito discutir, apontar e justificar a escolha dos equipamentos públicos, identificados por eles, como realmente necessários em seus territórios. Após a justificativa das escolhas dos equipamentos públicos necessários, os grupos plotaram, em um segundo jogo de imagem de satélite, a localização da instalação destes equipamentos, codificado pelo nome das ruas. A quarta etapa foi vivenciada em dois momentos: primeiro, os grupos foram apresentados aos conceitos de geotecnologias, mais especificamente o sensoriamento remoto e o sistema de informação geográfica (SIG); no segundo momento, os alunos foram levados ao Laboratório de Geoprocessamento - LabGeo/INPE, com o intuito de estruturar e alimentar um banco de dados espaciais no SIG. Nesta fase, a equipe do projeto desenvolveu uma apostila, entregue a cada um dos alunos, de modo que o trabalho se tornou mais independente.

O produto final foi a geração de um mapa, com os respectivos elementos cartográficos, onde estavam representados através do sistema de coordenadas geográficas, a localização geográfica dos equipamentos necessários, como também os atributos de cada um destes equipamentos apontados. Conforme Fox (2008), o crescimento recente da disponibilidade e acesso a modernas tecnologias de informação espacial - sistema de informação geográfica, sistema global de posicionamento de baixo custo, software de análise de imagens de sensoriamento remoto, começou a fazer com o que o poder associado ao registro e controle do espaço se tornasse acessível não somente aos mapeadores financiados pelo Estado, mas também àqueles tradicionalmente desabilitados pelos mapas.

A quinta e última etapa ocorreu na Câmara dos Vereadores do Município de São José dos Campos, com a presença do prefeito em exercício, secretários municipais, vereadores, dirigente regional de ensino do Estado de São Paulo, núcleo São José dos Campos entre outras autoridades, e constituiu-se da preparação da apresentação dos resultados alcançados, a explanação no auditório do Departamento de Sensoriamento Remoto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE, para todos os participantes do projeto, e proferida por uma vereadora do município de Taubaté- SP, onde foi abordado a Lei Orçamentária Anual - LOA, as respectivas funções e atribuições do poder executivo e poder legislativo municipal. O intuito foi juntamente com a cartografia subsidiar o discurso dos jovens frente ao poder público.

Contudo não poderíamos ignorar outros resultados alcançados com o desenvolvimento deste projeto que se mostrou muito além do uso das técnicas aqui trabalhadas. Estes resultados foram colhidos através da aplicação de um questionário aberto aplicados aos alunos participantes após a finalização da quarta etapa do projeto. Os alunos destacaram o gosto por aprender e adquirir conhecimento, através da participação direta de atividades extraclasse, apontaram melhora na autoestima por terem conseguido realizar atividades em que pensavam que não conseguiriam desenvolver, despertou o sentimento de pertencimento ao lugar, relataram a importância e o desejo de se tornarem cidadãos atuantes e por fim perceberam que os estigmas socioespaciais que carregam, por uma imposição consciente deste sistema vigente, podem se tornar passado, pois vislumbraram uma pequena fração do futuro que lhes espera. Desta forma concluímos que a aproximação entre a educação básica com universidades, instituto de pesquisa entre outras instituições contribui não apenas para ampliar a visão destes jovens, e até mesmo identificar futuros cientistas e pesquisadores, mas também como meio de justificar através da aplicação direta das pesquisas realizadas por estes órgãos uma contribuição para a constituição de uma sociedade mais harmoniosa.

Referências

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