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Capacitação de Educadores do Ensino Básico no Uso de Tecnologia Espacial no Estudo do Meio Ambiente: Vinte e Um Anos de Experiência do INPE

Elisabete Carla Moraes

Diante dos avanços tecnológicos acelerados nas últimas décadas, principalmente na área espacial, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), através da Coordenação-Geral de Observação da Terra, identificou a importância de popularizar e disseminar suas pesquisas para a sociedade, tendo o educador como o principal agente difusor destes conhecimentos, pois para o desenvolvimento de uma nação é crucial que as novas gerações tenham acesso e compreensão destas tecnologias, tornando-se cidadãos mais conscientes na utilização sustentável dos recursos naturais do planeta. Este olhar está em consonância com as orientações expressas nos parâmetros curriculares nacionais (PCN MEC/SEF, 1998) que reforçam a importância do uso de novas tecnologias no processo de ensino-aprendizagem.

Apesar de todas as atividades desenvolvidas pelo Inpe no sentido de difundir o estado da arte de suas pesquisas, o potencial das imagens de satélite como recurso didático ainda não é conhecido pela grande maioria dos professores de educação básica, embora os livros didáticos utilizem as imagens de satélites para exemplificar conteúdos educacionais. Neste contexto, em 1998 o INPE começou a oferecer anualmente, nas férias escolares de julho, o curso de “Uso Escolar do Sensoriamento Remoto no Estudo do Meio Ambiente” destinado à capacitação de educadores de todas as disciplinas do ensino básico do país, pois o uso de imagens de satélite permite uma maior compreensão das variações ambientais regionais e globais relacionadas com as ações antropogênicas e, com isto, amplia a conscientização e a instrumentalização para a busca de soluções para os problemas socioambientais pelos alunos.

Dado o caráter multidisciplinar que as imagens de satélite propiciam, o objetivo deste curso é difundir o uso do sensoriamento remoto como conteúdo e recurso didático nas escolas, incentivando os educadores a tornarem-se agentes difusores dos conhecimentos adquiridos em sua comunidade escolar, que abrange seus alunos e também a sua equipe de professores. Através de depoimentos de educadores que perceberam que as imagens de satélites atuavam como ferramentas motivacionais no processo de ensino-aprendizagem em sala de aula, e que as práticas pedagógicas deveriam permitir aos alunos assumirem um papel ativo na construção do próprio conhecimento, o Inpe, a partir de 2000, passou a incentivar, orientar e acompanhar os participantes do curso a desenvolverem projetos escolares com temas ambientais utilizando as imagens de satélite e outras geotecnologias, considerando a continuidade e o aprimoramento das atividades escolares que estavam ou seriam desenvolvidas pelo educador. Estes projetos passaram a ser apresentados e discutidos entre os educadores participantes deste curso no “Encontro de Uso Escolar de Sensoriamento Remoto”, o qual permitia a troca de experiência entre os educadores num ambiente formativo de cooperação e interação social, no qual todo o processo é compartilhado.

Atualmente o curso tem a duração de 40 horas e inclui os seguintes tópicos: Fundamentos de sensoriamento remoto; Satélites de sensoriamento remoto; Aplicações do sensoriamento remoto; Aplicações em meteorologia, com ênfase no uso de tecnologia espacial no estudo de fenômenos atmosféricos e na previsão do tempo; Cartografia e uso de GPS; Interpretação de imagens de satélites; Geoprocessamento; Sensoriamento remoto na educação; Atividades de campo, com imagens de satélites, com mapas, e de previsão de tempo; Orientação para elaboração de projetos escolares e Encontro de Uso Escolar de Sensoriamento Remoto.

Desde sua criação este curso capacitou 1248 educadores de todos os estados brasileiros, sendo aproximadamente 90% dos educadores provenientes da região Sudeste; 5,6% da região Sul; 1,8% da região Nordeste, 1,5% da região Centro-Oeste e 1,1% da região Norte, tendo sido acompanhados mais de 100 projetos educacionais.

Paralelamente a este curso, desde 2009 o Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto oferece para a cidade sede do evento um minicurso de 14 horas de Tecnologia Espacial na Educação, onde são ministradas palestras e aulas práticas nos tópicos: Fundamentos de sensoriamento remoto; Satélites de sensoriamento remoto; Interpretação de imagens de satélites; Aplicações do sensoriamento remoto; Aquisição e processamento de imagens de satélites; Exemplificações de projetos educacionais; e Desenvolvimento do Projeto pedagógico. As cidades sedes foram Natal, Curitiba, Foz do Iguaçu, João Pessoa e Santos, e um total de 485 educadores participaram destes minicursos, sendo 49,5% da região Nordeste, 37,1 da região Sul e 13,4% da região Sudeste. Este minicurso também foi oferecido nas quatro primeiras edições do Simpósio de Geotecnologia no Pantanal capacitando 78 educadores da região Centro-Oeste.

Mesmo com a iniciativa de levar esta capacitação em uso de sensoriamento remoto para educadores do ensino básico através de minicursos ministrados em outras cidades do país, ainda a grande maioria dos educadores participantes são provenientes da região Sudeste (65,5%). Na tentativa de expandir esta capacitação para todas as regiões do país, em 2009 e 2010 o Inpe ofereceu um curso à distância em geotecnologia para 30 educadores do ensino básico em cada edição, onde priorizou-se a escolha de educadores de regiões remotas do país. A duração do curso foi de três meses, com uma carga horária de 104 horas, ministrando o mesmo conteúdo dado no curso presencial. Participaram destas duas edições 54 educadores, porém apenas 33,3% dos participantes concluíram o curso com a entrega de projetos educacionais. Constatou-se que a pouca familiaridade dos educadores com o computador ainda era uma limitação no uso de geotecnologia. Esta dificuldade, aliada ao número reduzido de pesquisadores do Instituto envolvidos e o tempo despedido por estes para o acompanhamento do curso, não possibilitou a continuidade desta ação.
Ao longo destes 21 anos de interação do Inpe com educadores do ensino básico verificou-se o quanto que o conhecimento do sensoriamento remoto e suas técnicas de exploração de imagens de satélites são primordiais na formação inicial e na formação continuada dos educadores do ensino básico, de forma que estejam aptos a explorar o potencial das imagens de satélites, além disto verificou-se através dos projetos o quanto que o uso destas imagens como recurso didático permite a motivação e o progresso dos alunos para as discussões das questões ambientais, possibilitando a estes exercer melhor a cidadania.

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