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Programas, projetos e iniciativas para formação de professores

Formação Continuada: musicalização percussiva de professores unidocentes no ensino remoto

Laís dos Santos Tavares

O Projeto de Formação Continuada em Educação Musical - FOCEM, da Universidade Federal de Pelotas - UFPEL, tem por objetivo promover a formação continuada de professores por meio da musicalização, além de colaborar com a atuação dos docentes nas escolas de educação básica, de forma que eles possam unir aspectos teóricos/ práticos musicais, buscando desenvolver um trabalho musical em sala de aula.

Para Imbernón (2010), o conhecimento pedagógico pode ser gerado a partir de seu trabalho com os alunos. E nesse viés, entendemos a suma importância de trabalhar com professores de forma reflexiva sobre prática e teoria musical, de forma que eles construam um pensamento crítico sobre suas ações e práticas musicais, tornando-os assim, autores da própria prática. Nesse sentido, uma das oficinas realizadas pelo FOCEM neste ano foi a de Percussão e que tem como objetivo desenvolver a prática coletiva de instrumentos a partir dos ritmos musicais brasileiros. Com isso, exploramos diversas regiões do Brasil e sua música, conhecendo também aspectos culturais do nosso país.

A oficina de percussão conta com a atuação de três monitoras ministrantes, acadêmicas do curso de música licenciatura e com a participação de seis professoras da rede municipal de ensino do município.

Em função da pandemia da COVID-19, o projeto precisou mudar do formato presencial para o formato remoto. Nesse momento em que buscamos criar novas possibilidades para o ensino de música, Araújo, Chaves e Múrcia (2020, p. 173) dizem haver necessidade de “buscar novas formas de se reinventar, em um processo de ressignificação, englobando toda comunidade educativa”. E é nesse processo de ressignificação que temos partido para a construção da nossa nova sala de aula, o ambiente virtual, e os nossos equipamentos musicais são criados de forma alternativa com as professoras.

Este novo formato de ensino, tem sido algo novo e desafiador, pois no ensino de música há uma dificuldade muito maior na execução das atividades práticas. Assim, o primeiro módulo da oficina trouxe os gêneros musicais da cultura nordestina, como o Baião e atualmente estamos desenvolvendo outro gênero musical nordestino, o Ijexá. As aulas síncronas, aconteceram semanalmente via Zoom, onde desenvolvemos aspectos teóricos e práticos. Apresentamos características específicas do gênero musical, como a história do baião, instrumentos musicais e exemplos musicais, e a prática coletiva de instrumentos de percussão.

Em nossas aulas assíncronas, utilizamos como plataforma o Google Sala de Aula, onde exibimos vídeos com a execução corporal de três instrumentos que compõem o baião que são: a zabumba, a caixa, e o chocalho. Neste primeiro momento optamos por trabalhar a percussão corporal, a fim de compreender e se familiarizar com o ritmo e também conhecer as possibilidades da utilização do corpo como ferramenta principal no processo de aprendizagem musical, bem como a percepção dos diferentes timbres que podemos explorar por meio do corpo.

Foram gravadas três videoaulas sobre as células rítmicas dos instrumentos utilizando as palavras “Tuuum tum pá” - (que remete a sonoridade da zabumba); e frases que remetem a execução rítmica da caixa: (chocolate – pão – chocolate – pão – chocolate – bolo – chocolate – pão), e do chocalho (Chocolate – chocolate – chocolate – chocolate). Sugerimos a repetição dessas frases, para que as professoras pudessem cantar a batida, o que auxiliou o processo de aprendizagem desses instrumentos, ou seja ‘‘cantar uma batida ou convenção auxilia tanto na memorização quanto na fluidez da execução musical. Em suma, cantar facilita tocar’’ (MESTRINEL, 2018, p.221).

Após percebermos que elas estavam compreendendo e executando a percussão corporal de forma satisfatória, optamos por inserir os instrumentos alternativos, para que elas fizessem a execução, e tivessem um primeiro contato com instrumentos. Assim, esse primeiro contato se deu em uma aula síncrona onde pedimos para que elas estivessem com materiais como , balde e colher de pau (zabumba), prato e duas facas (caixa) e garrafa pequena com milho dentro (chocalho), e assim trabalhamos cada instrumento.

A cada atividade semanal era solicitado um vídeo da execução da percussão corporal e dos instrumentos alternativos e, para estas atividades, elas tinham um prazo de sete dias para enviar um vídeo resposta. Dessa forma, poderíamos auxiliá-las e verificar quais estavam sendo as dificuldades enfrentadas por meio de áudios e vídeos, respondendo de forma individual a cada uma das professoras de acordo com a dificuldade percebida, para assim solucionar o problema.

Temos percebido a importância de diversas plataformas digitais para comunicação ao longo de nossas aulas e propondo maior segurança nas execuções. De acordo com o que vem sendo trabalhado vimos o quanto as professoras evoluíram ao longo de cada atividade por meio das execuções nos vídeos resposta e aulas síncronas e, como pontos positivos, podemos salientar que elas compreenderam bem os conteúdos musicais trabalhados até então, como figuras rítmicas, pulsação e a prática instrumental e corporal do Baião.

Ao longo desse processo de musicalização, optamos por executar a percussão corporal na canção “Eu só quero um xodó” do cantor e compositor Dominguinhos, música conhecida no cenário nordestino. Dividimos a turma em 3 grupos: (Grupo 1- Zabumba, grupo 2- Caixa, e grupo 3 – Chocalho), onde, cada uma das monitoras ficou responsável por um instrumento e assim, desenvolvemos o arranjo da percussão corporal com as professoras de acordo com seus respectivos instrumentos. E como produto desse trabalho, gravamos um vídeo onde as professoras executam o arranjo da canção por meio da percussão corporal. Esse vídeo foi gravado, separadamente, por cada uma delas executando seus instrumentos no corpo, de acordo com as instruções que foram enviadas pelas monitoras do projeto.

Portanto, mediante os desafios estabelecidos diante deste cenário em que nos encontramos, acreditamos que conseguimos atribuir sentido e significado ao aprendizado teórico-prático musical das professoras mediante as aulas síncronas e assíncronas. Buscamos tecnologias e objetos cotidianos para a execução das aulas, de modo a compreender que, mesmo fora da nossa zona de conforto, podemos recriar, ressignificar, e criar possibilidades para o ensino musical, e desta forma crescermos individual e coletivamente e, cada vez mais, nos constituirmos como professores a fim de buscar a reinvenção da sala de aula em diferentes contextos.

Referências

ARAÚJO. M.V.N; MÚRCIA. J. H; CHAVES. T. M. A formação de professores no contexto da pandemia do COVID-19. In: Desafios da Educação em tempos de Pandemia. Org. PALÚ. J, et al. - Cruz Alta: Editora Ilustrações; 2020.
IMBERNÓN, Francisco. Formação continuada de professores. Tradução: Juliana dos Santos Padilha. Porto Alegre: Artmed, 2010.
MESTRINEL, Francisco. Batucada: experiência em movimento. Tese (doutorado em música) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2018.

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