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Pesquisa sobre formação interdisciplinar de professores é publicada pela USP


Pós-doutorandos da Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica buscaram avaliar a implementação da interdisciplinaridade em licenciaturas


Daniel Terra

Publicado em 23/06/2022


 

A formação de professores para o ensino básico ainda é um dos principais desafios enfrentados na busca por uma educação de qualidade no Brasil. Por um lado, cada vez mais professores têm formação superior: segundo o Ministério da Educação, em 2020 cerca de 80% dos contratados das redes pública e privada já tinham diploma. Mas, ao mesmo tempo, estudos e análises costumam indicar falhas na formação inicial do professorado.


Uma pesquisa concluída na Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica tratou desta questão e está disponível, gratuitamente, na Plataforma Aberta de Livros da USP. O trabalho buscou possíveis soluções e inovações que envolvessem os cursos de licenciatura e suas estruturas curriculares. Integrante do conselho consultivo da Cátedra e envolvida no projeto desde a sua fundação, em 2019, a professora Bernardete Gatti coordenou a pesquisa realizada pelo músico Daniel Puig e a bibliotecária Luisa Guimarães, pós-doutorandos da Cátedra entre os anos de 2020 e 2021.


O trabalho, intitulado “Uma Cartografia de Práticas e Soluções Inovadoras em Propostas Curriculares de Cursos de Formação de Professores para a Educação Básica”, buscou avaliar licenciaturas de universidades públicas que contam com currículos atualizados e pautados na interdisciplinaridade, além de práticas pedagógicas inovadoras. Ao analisar e compreender estas iniciativas, o trio espera que a pesquisa possa inspirar outras universidades na adoção destas práticas.


Integrando na prática


Por mais que sejam apresentadas ótimas iniciativas ao currículo das licenciaturas, a integração disciplinar não costuma se aplicar com facilidade. Não adianta só apresentar um novo currículo, pois ele precisa se apoiar em novas dinâmicas pedagógicas”, explica Bernardete. Isso pode resultar em tensões no momento de implementar estas ideias em um cenário marcado por dinâmicas tradicionais de aprendizado. A professora ainda lembra que é preciso considerar a desvalorização das licenciaturas nas universidades, muitas vezes ainda vistas como cursos menores.


Ao desenvolver a pesquisa, Bernardete, Daniel e Luísa sentiram que ainda existe certa resistência de professores e coordenadores em aplicar novas ideias, mesmo que elas sejam bem planejadas e estejam pautadas em estudos. Parte dessa resistência vem do fato de que estas ideias inovadoras exigem formações complementares, e isto gera alguns desafios práticos.


Mesmo assim, muitos profissionais ouvidos mostraram interesse na possibilidade de aplicar novas estruturas e propostas educacionais, buscando desde o início da licenciatura a abordagem de diferentes temáticas, a contextualização de disciplinas, e a conexão com a escola e com a realidade do aluno.


Para os pesquisadores, estes seriam os grandes diferenciais para que os alunos de licenciatura saiam da universidade mais capacitados para lidarem com o ofício da docência, a fim de entenderem as diversas realidades, executarem um trabalho com maior êxito e qualidade e levar um aprendizado mais significativo para as escolas.


Autonomia


Em 2020, Daniel Puig e Luísa Guimarães iniciaram o estágio de pós-doutorado na Cátedra Alfredo Bosi, sendo os primeiros pesquisadores da Cátedra nesta condição. Ao desenvolver atividades e participar de eventos durante um ano, a dupla gerou uma ótima impressão nos professores dirigentes da Cátedra, que em 2021 resolveram estender a parceria com pós-doutorandos. Hoje, são 43 atuando na Cátedra.


O desenvolvimento da pesquisa sob a batuta de Bernardete Gatti também foi muito bem recebida. Confiando na experiência dos pesquisadores, Bernardete concedeu autonomia para cada um deles atuar separadamente conforme o projeto avançava. Para a coordenadora, essa foi uma maneira de obter resultados diferentes durante o trabalho, mas também analisar as semelhanças entre as duas visões.


Nesse contexto, os pesquisadores buscaram entender a parte documental da estrutura curricular: como ela é montada, como ela foi estruturada, qual a jornada do aluno na licenciatura e como isso tudo funciona na prática.


O método utilizado foi o de pesquisas qualitativas, destacando o estudo de caso. Essa decisão foi tomada, sobretudo, por ser um método pouco explorado e para entender, de forma mais íntima, como se dão as relações dentro deste contexto educacional e quais são as dificuldades de execução pelos docentes.


Os entrevistados foram professores dos cursos e seus coordenadores, considerando suas familiaridades com a estrutura em que se desenvolve o trabalho e o conhecimento dos perfis dos alunos vinculados aos cursos.


A experiência da UFSB


Luísa ficou responsável por avaliar cinco licenciaturas da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). A UFSB nasceu com uma proposta interdisciplinar, buscando apresentar novas formas de pedagogia e de administração universitária.


A bibliotecária conta que alguns professores tentam conectar a disciplina ensinada com a realidade do aluno. Ou seja, se um aluno mora no campo ou seus pais trabalham com agricultura, é necessário trazer o conhecimento da universidade atrelado a essas vivências. Quando se consegue colocar as coisas em contexto, o conhecimento faz muito mais sentido para o aluno”, explica. “Ao conectar questões da sociedade, do meio ambiente, ou étnico-raciais, por exemplo, é provável que o aluno aprenda mais, já que a internalização ocorre e o conhecimento faz sentido na sua vida e na sua realidade.


Outro aspecto destacado por Luísa é que na UFSB os professores buscam avaliar o aluno de acordo com a sua trajetória: como o aluno evoluiu, onde ele conseguiu chegar e quão grande foi esse salto. “Não há uma régua única. O professor busca ver como o aluno progrediu do ponto zero até o ponto final.”


Ao analisar aspectos que formam os pilares fundamentais da educação básica brasileira, a pesquisa reforçou os objetivos da Cátedra Alfredo Bosi de contribuir para a formação e o reconhecimento do professorado no país. Com novos pós-doutorandos integrando a Cátedra, a experiência deixa a promessa de que outras contribuições virão.


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